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VIVER OU MORRER, EIS A QUESTÃO!


Há não muito tempo alguém me perguntava em relação ao actual estado das coisas, «como é que que conseguimos alterar isto?». Também alguém do meu circulo familiar perante a já comum e habitual exaltação e indignação perante os constantes ataques do poder vigente à liberdade e direitos das pessoas me costuma perguntar: «Mas porque é que te estás a enervar com isso? Não vale de nada, não vais mudar nada. Não és tu que vais mudar o mundo.»
Há primeira respondi muito pragmaticamente que só há duas hipóteses: por meio do voto e pela força das armas. Há segunda, costumo responder, que se ficar calado também não resolvo nada mesmo que isso ainda me seja prejudicial, e se falar, talvez alguém me ouça e me acompanhe. Pelo menos posso vir a saber que não estou sozinho e que não sou um louco esquizofrénico. Nem que não seja à falta de melhor motivo, sempre preserva a minha saúde mental.

Voltando há primeira questão, o voto só pode resolver alguma coisa ou provocar uma mudança reunindo dois factores: a existência de uma maioria popular disposta a votar em determinada posição e, a apresentação dessa orientação como projecto político dentro do sistema partidário que se apresenta a eleições.
No actual contexto politico-partidário, não existe essa proposta em nenhum dos partidos. Da esquerda à direita, do centro aos extremos, dos liberais aos iliberais, todos de uma forma ou outra assumem um projecto político assente no poder do estado, no estado como promotor e executor de políticas, no estado como salvador , no estado como solução para os problemas que o próprio estado criou. Uma bola de neve dentro da qual toda a gente parece rebolar alegremente rumo ao abismo. Aqui chegamos ao segundo factor: a maioria está alegremente e de livre vontade dentro da bola de neve. Gostam, estão contentes e parecem estar a divertir-se. Se não estão disfarçam bem. Talvez também haja a hipótese de, não estando bem nem estando a divertirem-se, não fazerem a mínima ideia de como saltar fora da bola de neve que gira e cresce a alta velocidade rumo ao abismo. Perante a hipótese mais que certa de saltar fora e partir as pernas os braços e a cabeça e morrer, talvez lhes reste a esperança de que em vez de uma falésia na vertente da montanha haja antes uma planície no fundo desta onde a bola páre naturalmente e o pesadelo acabe. Tze tze! Num regime estatal autoritário (desculpem-me o pleonasmo) não há planícies verdejantes, e se houver, alguém te colocará devidamente domesticado dentro de uma cerca.

A segunda alternativa fica assim a cargo da violência armada, que no actual contexto é igualmente quimérica. Para começar, em devido tempo o poder político vigente tratou de convenientemente desarmar a população civil (a ultima alteração à lei do uso e porte de arma que deu o golpe final no completo desarmamento da população foi há menos de dois anos, convenientemente), e, um Povo sem armas é um povo sem capacidade útil de defesa, e facilmente manietável. O estado autoritário reserva sempre para si o uso exclusivo e o monopólio da violência e do poder pela coerção. Qualquer tentativa de sair desta situação pela via da força será facilmente travada à nascença.

Temos o exemplo da Venezuela onde a esmagadora maioria da população está contra o governo e o regime, e por mais manifestações que façam, tudo o que lhes resta para lutar é bater com as colheres nas panelas onde já não conseguem meter comida. O governo mantém e controla o uso da força. E também lá, pelo voto nada se consegue mudar devido ao controlo e manipulação do acto eleitoral. Reféns e escravos do monstro que o próprio povo criou.

Assim, chegamos ao acto de indignação de refilar e mandar bocas. Aproveitar o pouco tempo que nos resta de ainda podermos falar e repetir até à exaustão que o rei vai nu, que nos estão a conduzir em manada para um estábulo onde depois de marcados a ferro em brasa seremos usados primeiro como força de trabalho e depois abatidos. Não, não é delírio, basta estudar a história mais recente do século XX. Costuma-se dizer que a história se repete sempre primeiro como comédia e depois como tragédia.
O que me indigna ainda mais, é que a história já se repetiu antes como tragédia, pelo que o que vem a seguir não augura nada de bom.

A população hoje na sua maioria, está devidamente doutrinada pela escola e pela media. Animais de estimação devidamente amestrados e ensinados a cumprir todo o tipo de habilidades e tarefas. Primeiro levam com um chip no cachaço e são devidamente vacinados e munidos de um passaporte sanitário que os identifica perante a autoridade tornando impossível a fuga. Agora já sabem responder ao chamamento do dono, sentam, rebolam, dão a patinha, vão buscar a bola alegremente, sabem onde cagar e mijar para não danificar o planeta, e comem a dose diária de ração à hora certa dentro do maceiro correcto. Trabalham alegremente em troca de alimento, segurança e umas festinhas, fazem exercício físico e defendem o dono com garra, afinco e devoção religiosa perante a presença de qualquer cão vadio que se atreva a mijar-lhes no portão, que, a seu tempo, será devidamente encarcerado e enviado para abate no canil municipal caso não se submeta ao chip no cachaço e ao programa de reeducação. Foi de resto para isso que a espécie evoluiu desde a oponência do polegar, passando pela linguagem e pela escrita e pela organização em sociedade complexa, depois da subida à lua e do envio de sondas para lá da cintura de asteroides ou do sistema linfático.

Não se iludam: não sois mais seres humanos livres dotados de livre arbítrio. Sois só e apenas números Um numero numa imensidão de números devidamente ordenados, coordenados, e controlados pelos mais modernos sistemas de telemetria. Uma peça dentro da engrenagem facilmente substituível e reciclável depois da devida triagem do lixo. Sois matéria. Matéria orgânica. Uma enorme massa de matéria orgânica sem vontade própria ao serviço de um poder maior.
Ironia das ironias. Desde que começaram a adorar a deus o resultado só poderia ser este. Este é sempre o resultado de colocares a tua liberdade ao serviço de algo maior que tu, que desconheces em absoluto mas em quem confias que tomará conta de ti a troco de nada.

Que saudades do tempo em que lutavas para sobreviver. Ou «matas ou morres» que se me revela muito mais agradável do que o «vives para não viver». Reconheço-vos o direito de tomarem as decisões que quiserem para vós, mas peço-vos, que não me arrastem convosco nesse vosso delírio.

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3 Comments

  1. hidetora

    > Há(À) primeira(,) respondi muito pragmaticamente que só há duas hipóteses: por meio do voto e pela força das armas.
    Há uma outra alternativa, através da desobediência civil, porque, convenhamos, um voto não é um meio para nenhuma mudança, o voto apenas legitima o poder de certos indivíduos aos olhos das massas.
    Mais importante do que a força das armas, no entanto, é a existência de estruturas sociais robustas independentes do estado. Aí, inclui-se a família como a menor das estruturas, logo acima do indivíduo, e claro as milícias fortemente armadas.
    Como reconstruir essas estruturas, esses meios de acção, já é outra história.

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  2. Américo Varatojo

    hidetora, como é que pretende recorrer à desobediência civil sem o uso da força das armas contra alguém que detém o monopólio do uso da violência e da coerção?

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    • hidetora

      Américo, se 60-70% das pessoas se recusarem a obedecer e a pagar impostos, a máquina, por assim dizer, desmorona-se. Não é como se os agentes da polícia e os militares não fizessem parte da população e começassem a atirar nos seus concidadãos. Sofreriam represálias dos seus amigos, dos seus familiares e das suas mulheres se tal acontecesse.
      A posse de armas reduziria o número de pessoas necessário para que a revolta seja bem sucedida, aumentando o custo da sua repressão, mas o seu uso não é inevitável. Temos exemplos modernos disto tal como a revolução de veludo.

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