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O povo que os pariu

Não sendo idoso ou sequer velho, já cá ando há tempo suficiente para me lembrar de umas quantas coisas, nomeadamente relacionadas com política.

Nascido uns meses antes do 25/04/1974 em território ultramarino, com toda a turbulência política que se lhe seguiu, crescido no seio de uma família de espoliados de Angola revoltados contra tudo o que o movimento progressista marxista revolucionário nos queria impor e por tudo o que nos tinham roubado e respectivas traições, numa pequena aldeia do centro de Portugal onde as autoridades da terra ainda eram a professora, o padre e o presidente da junta que tinha entretanto destronado o regedor por este não ter poder nem orçamento para distribuir prebendas em troca de favores aos amigos dos copos que chupavam nas adegas dos pobres desgraçados.

Foi neste contexto altamente politizado em que a política e as politiquices ocupavam noventa por centos das conversas nos cóios tabernas e cafés – até porque o Benfica por estes anos não deixava espaço de manobra ao Sporting nem a um F. C. do Porto que ainda não existia – que desde tenra idade me comecei a interessar por política.

Assim, dessas primeiras memórias, chegam-me os ecos das eleições intercalares de 1979, Maria de Lurdes Pintassilgo como Primeira-ministra, a Aliança Democrática que nas legislativas de 1980 roubou 6 deputados à Aliança Povo Unido (APU) no Alentejo ( ninguém falou disto quando o Ventura recuperou 3000 votos à CDU no Alentejo, preferiram tecer comparações com os franceses) alcançando assim a primeira maioria absoluta da democracia contra uma geringonça de centro esquerda a Frente Republicana Socialista formada pelo Partido Socialista (PS), a União de Esquerda Socialista Democrática (UESD) e a Acção Social Democrata Independente (ASDI), as eleições presidenciais de dezembro de 1980 entre o Eanes e Soares Carneiro três dias depois da morte de Sá Carneiro, o fim da AD, as legislativas de 1983 com o bloco central do Soares com o Mota Pinto e Hernâni de Carvalho nas finanças, o FMI pela segunda vez, e todo este período culmina nas míticas presidenciais de 1986 onde Soares derrota Freitas do Amaral na segunda volta com os votos dos comunistas de Álvaro Cunhal que esgotou o stock nacional de sais de frutos e de sapos, e o surgimento de Cavaco, aquele que garantiu ser a esquerda moderna e que ganhou quatro maiorias absolutas no Centro direita dez anos depois de Sá Carneiro apresentar a candidatura à internacional Socialista, e ouvir agora Rui Rio falar em Social-democracia até me dá vontade de chorar, é que ele até está certo, o PSD sempre foi um partido de esquerda, mas adiante.

Tudo isto para vos dizer que a política não mudou muito desde então. Os jargões mais correntes eram: «os políticos são todos iguais»; «eles só querem é tacho»; «passam a vida a lavar roupa suja»; « prometem muito mas são uns mentirosos que nunca cumprem o que prometem»; «vão p´’ra lá p’ra se governarem e arranjarem bons empregos à família e aos amigos». Como vêem, não mudou assim tanto.

Os putos na escola lutavam por um autocolante do Sá Carneiro, por uma caneta do CDS, por um porta-chaves do PNR ou um boné do «Soares é fiche».
A distribuição de brindes e galhardetes por feiras, mercados tabernas e adegas era de resto uma procissão de velas sagrada. As festas-comício de Sábados à tarde com muita sardinha e lentrisca assada e umas enormes dornas de madeira cheias de blocos de gelo onde a putalhada gelava os braços de mangas arregaçadas à procura do ultimo Frissumo de ananás ou da ultima gasosa da Rical.
Nas tabernas e cafés havia discussões noite dentro com muitos decibéis e bancos mochos de madeira que invariavelmente faziam a vez de uma moca de Rio Maior e enxertavam os cornos de qualquer comuna que se atrevesse a soltar um «FILHOS DA PUTA DOS RETORNADOS, VÃO MAS É P’RA VOSSA TERRA» (isto hoje seria claramente uma afirmação racista e xenófoba).

Se os ânimos hoje são bem mais pacíficos, os meandros e os métodos da política mantéem-se basicamente os mesmos: uma mão lava a outra, um emprego para a cachopa que acabou o nono ano, outro para o cunhado nos estaleiros da câmara que apesar de ganhar menos tem mais regalias que no empreiteiro. Empreiteiro esse que lá vai ganhando os concursos públicos das obras camarárias que lhes permite comprar os apartamentos no Algarve onde os vereadores gozam as férias em Agosto.
O presidente da junta sobe a vereador, este a presidente da concelhia, de presidente da câmara a governador civil e a deputado é um saltinho se chupar os tomates certos e lamber o cu a quem o exija. Também convém cumprir a rumaria das adegas e caves frescas onde destilam o vinho do pobre coitado que só quer estar de bem com gente importante, porque do cortejo constam sempre o sargento da guarda, os oficiais de justiça do tribunal, o fiscal das finanças, o gerente do banco, o vendedor de carros, um emigrante com dinheiro que precisa de aprovar os lotes de construção de mais meia dúzia de prédios, e todo o séquito de Zés ninguém chupistas que comem à borla nomeadamente funcionários públicos de baixa patente.

Esta era a ordem social. Era assim que se enfrentava o aperta o cinto do grande Mário Soares da fome na península de Setúbal e dos salários em atraso, das greves diárias na Lisnave e na Setnave, dos transportes públicos e greves gerais da função publica, das comemorações do 25 de Abril e do primeiro de Maio (dois clássicos numa semana) das sucessivas desvalorizações do Escudo e inflação a 42% ao ano e taxas de juro a 48% que rendia a 36% para as remessas de emigrantes.

Sim, é verdade que hoje a ordem social está um pouco diferente. Há internet e já não vem ninguém bater à porta de casa às dez da noite a dizer que a prima do Brasil ligou para o café. Já não se mandam os putos à loja da Aldeia enviar um telegrama a troco de 2 rebuçados, e já não se encontram alunos no ensino básico com 1,80 m barba e bigode que encostam facas ao pescoço das professoras.
Mas no essencial, o país não mudou assim tanto. Os políticos são corruptos, ou não seriam políticos. É essa a sua natureza. E o povo continua servil na esperança que caiam umas migalhas. Hoje não correm atrás de canetas ou porta chaves, mas continuam a enfiar os bonés apesar de já não dizerem que aquele filho da puta é fiche, mas é o filho da puta que lhe diz que o povo é fiche, que é o melhor do mundo, porque continua a pagar e a votar, e a servir na esperança de ser servido, sem nunca parar para pensar que seria muito fácil acabar com estes ciclos intermináveis: basta pensar que não precisam desta gatunagem para nada. Basta pensar que apenas deveria ter a liberdade que lhe prometeram. Aquela que nunca teve e da qual continua afastado. Aquela que lhe sonegam de cada vez que aumenta o Orçamento de Estado, a Divida pública e o Deficit. Aquela que o Povo sonega a si próprio de cada vez que mete uma cunha e faz o fatal pedido do pequeno favor. É que não nos podemos queixar da corrupção de políticos no poder quando somos nós enquanto povo que os parimos e mais às suas practicas nada éticas e que muito ficam a dever à moral, mas os maus costumes, esses, são exactamente os mesmos.

Não podemos querer culpar políticos por corrupção quando a corrupção é na nossa sociedade um acto de cultura institucionalizada. A diferença entre uma pequena cunha para empregar a filha ou a sobrinha nos serviços administrativos da Câmara municipal ou da escola ou do centro de saúde a troco de uns almoços ou da amizade dos tempos da escola, não é diferente da corrupção de um primeiro-ministro, de um ministro, secretário de estado ou director de um serviço publico a troco de uns milhares ou milhões mais um condomínio em Búzios. É exactamente o mesmo acto. Exactamente o mesmo acto que aprendemos desde a nossa pequena infância à mesa de jantar, nos cóios, tabernas e cafés. É perfeitamente natural, a diferença é apenas a dos valores envolvidos. Valores esses roubados sempre ao mesmo pobre desgraçado a quem fodem o vinho de dentro dos barris e ainda os garrafões de azeite, os cabritos os galos e até os nabos, e que lhe resta como única esperança a de vir a usufruir também ele do bolo, ou das tetas da grande porca – do pequeno favor.
Tudo se resume a isso, tentar sacar o máximo contribuindo o menos possível. Todos contra os impostos, mas todos a favor do grande Estado que a todos providencia na exacta medida da suas capacidades para se servirem do Buffet.
Os brindes são assim hoje um bocadinho melhores, mas a servidão é a mesma.

No princípio desta coisa da pandemia e do confinamento obrigatório (peço desculpa pelo Pleonasmo) ouvi muita gente a transbordar esperança que era esta a crise que deitaria este governo (quiçá até este regime de corruptos) abaixo. Que a esta crise o dr Costa não resistiria.
São novos, ou não se lembram. Parece-me que não conhecem estes políticos e muito menos este povo que os pariu. Ou isso, ou andaram distraídos todos estes anos.

Quem não andou distraído fui eu que ajudei a pagar a traição da descolonização, três bancas-rotas e uma dívida publica que no final desta história toda vai saltar para perto dos 200% do PIB (para já o burgesso diz que a recessão é de apenas 4% – LOL).

Não há melhor oportunidade para um político reforçar o seu poder que uma desgraça onde possa «ajudar» alguém com o dinheiro de outrem, e ainda sair em ombros. Não só o governo não cai como a ditadura se vai acentuar ainda mais. Quem não os conhecer que os compre, e eu conheço-os tão bem como me conheço a mim. Cresci a respirar-lhes o adn. Conheço-lhes tão bem o sorriso falso como a simpatia dissimulada e quão afiadas são as mãos que te acariciam as costas e os elogios que te afagam o ego já para não falar das promessas que se evaporam com o álcool do vinho e da aguardente na respiração assim que atravessam a soleira da porta que os acolheu.

Pelo sim e pelo não, ainda guardo a moca de Rio Maior e um banco mocho de madeira, não vá o diabo tecê-las.

Se calhar estou estou mesmo a ficar velho. Talvez porque já me lembre de umas quantas coisas.
Lembro-me do Povo que os pariu.

LIBERDADE OU MORTE!

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