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COMO FOI POSSIVEL? Uma fábula do nosso tempo.

Há uns tempos, acerca da situação na Venezuela, alguém me perguntava: – “como foi possível fazerem isto a um país tão lindo onde se vivia tão bem?”

Muitas vezes ouvi perguntar também retoricamente: – “como foi possível a Alemanha embarcar na aventura nazi?”

Ainda não ouço perguntar agora, mas não faltará muito para que a generalidade das pessoas começar a perguntar: – “como foi possível deixar-mos a nossa civilização desmoronar-se desta forma. Como foi possível que tenhamos permitido perder a nossa liberdade para este estado de ditadura?”

A história repete-se sempre, primeiro como comédia, depois como tragédia. A parte da comédia já passámos, ou estamos a passar. A tragédia não vai demorar. O argumento está escrito, o orçamento da peça está  aprovado, os encenadores contratados, os produtores tem tudo organizado, a sala está alugada e os actores já estão em cena. Os espectadores, esses também já estão na plateia, alguns no primeiro balcão e a elite, naturalmente nos camarotes VIP. Todos aplaudem, sem excepção, excepto os que se recusam a ir ver a peça. Mas desses não haverá uma linha escrita no artigo da critica à peça. Dos proscritos, dos decapitados, dos ostracizados, dos proletas não reza a história. Quando se olha para o monumento todos lhe elogiam ou criticam a arquitectura, o sentido estético, por vezes até a utilidade ou falta dela, mas todos invariavelmente ignoram as pedras, a argamassa, o entulho, os andaimes, os feridos e os mortos. Há muito que nos especializamos em reescrever a história, nada de novo aqui para ver. A circular, andor.
 
Depois das revoluções e convulsões do século XIX e principio do século XX, das guerras, das pandemias, da inflação, da fome, da catástrofe e do caos, o Povo mais culto e civilizado de então embarcou na aventura de um lunático. Lunáticos foi coisa que nunca faltaram ao longo da história: uns retratados como profetas, como grandes generais, como salvadores, como filósofos o que quiserem. Qualquer coisa que faça sentido às massas no momento é tomado em alta consideração.

Quando tudo está mergulhado no caus, qualquer burro com um chapéu na cabeça que proponha a ordem será abraçado e seguido como o herói salvador.
 
No final dos anos 20 do século XX foi o período por excelência de aparecimento dos grandes ditadores pós monarquias, das primeiras aventuras democráticas  liberais e republicanas.

Qualquer organização social de pequena dimensão se pode regular por ordem espontânea. O problema da ordem espontânea é a dimensão. A anarquia rapidamente deriva para a anomia, para a imposição do poder dos mais fortes e inteligentes sobre os mais fracos e menos expeditos. Surge assim por vontade e aceitação da maioria à submissão da liderança de um alfa que organize e proteja não só das ameaças internas mas também da vulnerabilidade face às forças externas.

As cidades e pequenos reinos e republicas estado dão assim lugar às grandes nações estado. Como qualquer poder, depressa embarcaram na demanda de reforço de poder sobre pessoas territórios e controlo das matérias primas.

Aqui chegados, as guerras e tudo o que lhes está associado depressa se tornam uma inevitabilidade, e surge a primeira guerra mundial.

A primeira grande guerra mostrou pela primeira vez e em primeira mão ao mundo inteiro algo para o qual  ninguém estava realmente preparado: o poder de matar em massa. O equilíbrio das forças em conflito para além de potenciar a chacina e outros horrores, e perante a prespectiva de se fazer arrastar indeterminadamente no tempo levou ao armistício. Uma solução encontrada para acabar uma guerra interminável onde houve vencedores sem vencidos. Estavam terminados os tempos em que o vencido não era poupado aos horrores das pilhagens, das violações e dos genocídios.

Apesar de se querer fazer passar a ideia de que o perdedor não foi vencido, não se perdeu a oportunidade de o humilhar e de garantir que não voltaria a ser uma ameaça outra vez.
Esta solução lançou a Alemanha na mais profunda crise, económica e social. Seria preferível a aceitação da derrota incondicional a tamanha vergonha, submissão e vassalagem.

Perante a dimensão  do caos criado, não foi difícil aceitar de braços abertos as propostas de qualquer Messias que prometa o pão, a ordem e a paz. Não foi difícil ao Povo mais culto e educado da época aceitar as propostas de um louco. Costuma-se dizer que dois dias de fome é tudo o que separa a civilização do caos.

Aqui, lembro-me da história que nos foi contada numa noite de chuva e vento na tropa durante um exercício noturno com fogo real:
 – Era uma vez um passarinho que estava perdido e molhado com muito frio e não conseguia voar. Então aparece uma vaca, a quem ele se queixou. A vaca ao vê-lo naquele estado prometeu ajudá-lo. Vira-se de costas e caga-lhe em cima. Assim, o passarinho deixou de ter frio e estar exposto à agrura dos elementos porque estava protegido no meio da merda quente da vaca.

Nisto, passa uma raposa e perguntou-lhe porque estava ali metido no meio da merda. O passarinho respondeu que estava com muito frio e molhado e que não conseguia voar, e que a vaca lhe tinha cagado em cima para o proteger, mas ele não gostava mesmo nada  de estar ali metido no meio da merda. A raposa ao ouvir isto disse que o podia ajudar. O passarinho perguntou: Como? A raposa vai, tira o passarinho da merda e come-o. Moral da História: nem toda a gente que te põe na merda te quer mal, da mesma forma que nem todos os que te prometem salvar te querem bem.

Todos sabemos o que aconteceu à Alemanha, e a tantos outros países na historia mais recente.
 
Hoje, não estando bem, por causa das vacas que nos puseram na merda, devemos desconfiar das raposas que nos prometem salvar. Talvez a raposa não seja nossa amiga, talvez a merda não seja assim tão má e talvez devêssemos dar mais ouvidos às vacas que não nos prometendo soluções milagrosas, pelo menos não nos querem comer. Ou ainda, como o mote de sabedoria popular com que em certo tempo alguém desafiou Gil Vicente: – “mais vale um burro que me carregue do que um cavalo que me derrube!” Ou ainda, como dizia a minha avó Coceição: – “livrar de quem diz não gostar de mel ao pé das minhas colmeias.”

Depende de nós hoje evitar que mais tarde alguém pergunte: como foi possível? Os problemas não se resolvem. Evitam-se.

Basta olhar para a história mais recente para perceber o que está a acontecer. As raposas não mentem nem tão pouco estão a esconder nada. Nem dissimuladas são. Está tudo à vista, às claras e à descarada. Quando te oferecem um almoço grátis, tu és o almoço, e o passarinho da nossa fábula nunca o chegou a saber.

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