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A eutanásia do rentista e quem é que decide se os bancos vão à falência ou não

Esta frase célebre de Keynes, “a eutanásia do rentista”, foi finalmente alcançada pelo BCE. Se foi coincidência o facto de esta medida ter sido apadrinhada por um italiano e um português, não sei. Este banco central, enquanto produtor monopolista de euros, ao emprestar dinheiro aos bancos a uma taxa de zero tornou o euro um produto não escasso para esses bancos – é como areia na praia, não falta. Mais, até acaba por ser como lixo nos países ricos – pagam para alguém ficar com ele. Dantes, o BCE emprestava dinheiro aos bancos a uma taxa positiva. Tal como um branco de cabelos loiros e um preto de carapinha, no saudoso reclame do restaurador Olex, toda a gente considerava isto normal. Agora, o BCE faz este passe de mágica – “podem vir aqui buscar o dinheiro que quiserem que não pagam qualquer juro.” Acrescente-se a isso o facto de os bancos que tiverem “reservas excedentárias” serem penalizados com uma taxa negativa – isto é, pagam uma espécie de multa por terem “dinheiro parado” – e claro que a partir daqui os depósitos a prazo que o povo tinha junto dos bancos e que serviam para financiar a atividade destes – nomeadamente para os bancos terem dinheiro para fazer os seus empréstimos – passaram a ser redundantes. Esses depósitos só servem para estorvar. Os bancos só não cobram uma taxa negativa em muitos depósitos a prazo porque seria extremamente impopular e levavam tautau do BCE e dos governos, enquanto “representantes” do povo bom.

A consequência disto é que o bom povo, que dantes lá conseguia arrebanhar umas poupanças para fazer face a um dia de chuva e metia o dinheiro no banco a render a uma taxa de 4 ou 5%, agora, se quiser poupar dinheiro e ter juro, tem que investir esse dinheiro em produtos com risco ou mais complicados de perceber, e sujeitar-se a ficar ainda com menos dinheiro do que aquele que poupou ou a perdê-lo todo. É este tipo de maravilhas que eu aprecio no planeamento central – não há nada que eles não consigam fazer. E ainda dizem que é impossível um porco andar de bicicleta! Isso é só se o governo não quiser. Se ele quiser, não só os porcos andam de bicicleta como as vacas começam a voar.

Mas se o dinheiro não é escasso para os bancos como é que alguns vão à falência?

Os bancos entram em insolvência quando o ativo se torna menor que o passivo – por outras palavras, quando o Capital Próprio (CP) se torna negativo. Ora, os empréstimos que os bancos fazem são ativos do ponto de vista destes bancos. Por outro lado, quando um banco faz um empréstimo fica com um passivo correspondente – credita a conta de depósito à ordem do contraente do empréstimo. Se o banco, posteriormente, não vir reembolsados os empréstimos ou os der como perdidos, tem que retirar esses empréstimos do ativo, sem retirar um correspondente passivo – essa diminuição no ativo é assim refletida contabilisticamente numa redução do CP – e, se esses valores forem significativos, o banco entra em falência técnica. Contudo, pode dispor perfeitamente de liquidez para continuar a sua atividade – mas, tecnicamente, está falido.

Agora, se o BC quiser, como é que salva o banco? Fácil, compra-lhe os créditos malparados em troca de moeda emitida por si a custo zero. O banco, assim, vê apenas uma substituição de valores no ativo (menos um empréstimo e mais reservas monetárias) e continua alegremente a sua atividade. A monopolização da emissão de moeda cria assim um sistema monetário altamente destrambelhado e politizado (sinónimos?!) em que o banco central e o governo podem decidir que bancos é que vão à falência e que bancos é que continuam.

Agora tenho que acabar – passou ali à janela uma vaca a voar e eu também quero ir ver.

*este artigo foi originalmente publicado no www.contracorrente.pt

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