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A depressão que se curou sozinha

Como havia prometido no meu artigo anterior, hoje continuaremos o foco na vertente “positiva” da economia e dos mercados, evitando um ênfase exagerado em ameaças ou desgraças iminentes (ainda que não seja tarefa fácil). Não obstante, façamos uma pausa no nosso percurso pelas teorias sobre o funcionamento dos mercados (1). Por muito eloquentes e sistematizados que sejam os nossos argumentos, a verdade é que, à generalidade dos leitores, nada agrada mais do que um artigo curto mas repleto de narrativas factuais, se possível com um toque de ironia e suspeição.

Assim sendo, falemos de algo que aconteceu há 100 anos atrás. É verdade que, ultimamente, por razões óbvias, muita gente tem revisitado a chamada “gripe espanhola” de 1918. Contudo, por volta da mesma altura, houve também um outro acontecimento que, na minha humilde opinião, seria também interessante recordar nos dias de hoje.

Já ouviu falar da Depressão de 1920-21? É provável que não.

Todos nós, de tempos a tempos, ouvimos falar do fantasma do crash de 1929, dos medonhos anos 30, da Grande Depressão que supostamente só foi resolvida com uma nova Guerra Mundial (bom tema para um futuro artigo). Provavelmente, haverá até quem, no atual contexto em que vivemos, acredite que, perante a falta de medidas drásticas dos diversos governos, podemos estar condenados a algo parecido. Contudo, surpreenda-se o leitor, pois nos anos de 1920-21 também houve uma depressão, mas da qual ninguém fala, nem mesmo na atual situação em que ela seria jornalisticamente tão apelativa e tentadora a uma comparação direta. Mas ela existiu mesmo – está na Wikipedia! (2).

As causas foram diversas. Após o final da Grande Guerra, assistiram-se a alguns meses de elevados ganhos e renovadas expectativas. Contudo, dada a gigantesca inflação e os controlos governamentais introduzidos pela Grande Guerra, bem como os mortos provocados pela mesma e pela pandemia que a seguiu, era inevitável um grande reajustamento nas economias de diversos países.

No que respeita aos Estados Unidos, diversos autores estimam uma redução no Produto Nacional Bruto (PNB) de entre 2,4% e 6,9%! Quedas gigantescas nos preços, entre 14% e 18%. Repito: deflação de 18% (superior à verificada nos anos 30)! O desemprego, que em 1919 se estimava entre 1,4% e 3%, atingiu possivelmente os 11,7% em 1921. Foram empresas a falir, reduções drásticas nos lucros, até que… terminou. Em 1923, o desemprego já se voltava a cifrar entre os 2,4% e os 4,8% e a economia estava pronta para os “Loucos Anos 20”. Tal como descreveu o professor e banqueiro Benjamin M. Anderson (1886-1949) nas suas memórias, «assumimos as nossas perdas, reajustámos a nossa estrutura financeira, aguentámos a nossa depressão e, no mês de agosto de 1921, começámos de novo. Na Primavera de 1923 já tínhamos alcançado novos máximos na produção industrial e havia até falta de mão-de-obra em muitos setores». (3).

Perante tal sucesso no combate à recessão, a pergunta que se coloca é: O que fez o Governo? Queremos aplicar a mesma receita!

A resposta é: Nada. Ou melhor: cortou despesa para reequilibrar o orçamento e reduziu a dívida pública! Não houve injeções massivas de liquidez da parte do banco central, nem gigantescos planos de estímulo da parte do ministério da economia, nem controlo de preços e de lucros. O Presidente Wilson havia sofrido um severo AVC no final de 1919, que o deixou basicamente incapacitado durante o resto da sua presidência, e o seu sucessor, o republicano Warren G. Harding, expressou-se da seguinte forma aquando da sua nomeação como candidato à presidência, em 1920:

«Apelemos a todos por parcimónia e economia, por abnegação e sacrifício se for preciso, por uma luta mundial contra a extravagância e o luxo, pela reafirmação de uma vida de simplicidade, daquele plano de vida prudente e normal em que consiste a saúde da República. Nunca, desde que a história da humanidade se começou a escrever, se recuperou de uma guerra a não ser pelo trabalho e pela poupança, pela diligência e abnegação, ao passo que a despesa desnecessária e a extravagância negligente têm marcado todas as decadências na história das nações.»

Por ser tão caricatamente oposto ao que esperaríamos de um presidente da república hoje em dia, tomo a liberdade de citar também uma parte do seu discurso de tomada de posse, em março de 1921:

«Nenhum destes castigos será leve, ou sequer distribuído uniformemente. Não existe forma de assim os tornar. Não existe um passo instantâneo da desordem para a ordem. Temos de enfrentar as condições de uma realidade cruel, assumir as nossas perdas e começar de novo. É a lição mais antiga da civilização… Nenhum novo sistema fará um milagre. Qualquer experiência selvagem só contribuirá para aumentar a confusão. A nossa melhor garantia reside numa administração eficiente do nosso sistema já testado». (4)

Assim sendo, o orçamento federal foi reduzido de 18,5 mil milhões de dólares em 1919 para 3,7 mil milhões de dólares em 1922 e a dívida pública desceu de 26 mil milhões de dólares no final de 1919 para 22,3 mil milhões em junho de 1923 (5). Por estas razões, o reconhecido analista financeiro James Grant, autor do livro The Forgotten Depression: 1921: The Crash That Cured Itself, notou com alguma ironia que, «tanto à luz da doutrina keynesiana como da monetarista, é difícil imaginar políticas mais primitivas ou contraprodutivas».(6) Nesse sentido, compreende-se que Grant tenha descrito esta depressão como “o crash que se curou sozinho”.

Mas será que o Governo podia ter tornado as coisas mais suaves? Talvez. Só que provavelmente à custa de estagnação, como foi o caso da Depressão dos anos 30, e de maiores problemas no futuro, como foi também o caso do Japão.

Como descreve Anderson a este respeito, «no início de 1920, os grandes bancos, os grupos industriais e o governo juntaram-se, destruíram a liberdade dos mercados, travaram a queda dos preços das matérias-primas e mantiveram, durante sete anos, o nível de preços japonês acima do nível mundial, então em queda. Durante estes anos, o Japão sofreu de uma estagnação industrial crónica e, no final, em 1927, teve uma crise bancária de tal gravidade que muitos grandes grupos bancários ruíram, assim como muitas indústrias. Foi uma política estúpida. Na tentativa de evitar perdas em inventário que representavam um ano de produção, o Japão perdeu sete anos, só para depois incorrer em perdas ainda mais exageradas no final. O New Deal chegou ao Japão no início de 1920.»

Dá que pensar…

(1) Para os dois artigos anteriores, ver: https://drcaoe9.wixsite.com/blog/post/jean-baptiste-say-e-a-escassez-de-bens e ehttps://drcaoe9.wixsite.com/blog/post/a-m%C3%A3o-invis%C3%ADvel-%C3%A9-movida-por-lucros-e-preju%C3%ADzos

(2) https://en.wikipedia.org/wiki/Depression_of_1920%E2%80%9321

(3) Benjamin M. Anderson havia sido professor de banca e economia em Harvard e Columbia,e era já um famoso autor de livros e crónicas tanto ao nível de teoria monetária como da situação financeira americana e mundial. O seu grande livro de 1949, Economics and the Public Welfare, relata os acontecimentos económicos mais relevantes desde 1914 até 1946. Disponível em: https://cdn.mises.org/Economics%20and%20the%20Public%20Welfare_5.pdf

(4) Cf. citado por Thomas Woods em: https://mises.org/library/forgotten-depression-1920

(5) Ver: https://www.usgovernmentspending.com/total_1922USmt_21ms5n e https://www.treasurydirect.gov/govt/reports/pd/histdebt/histdebt_histo3.htm

(6) https://www.amazon.com/Forgotten-Depression-Crash-Cured-Itself/dp/1451686463

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