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É ISTO UM HOMEM? Por Primo Levi

Capítulo «Aquém do bem e do mal »

«É isto um Homem?», é o relato na primeira pessoa de um sobrevivente do holocausto. Primo Levi, italiano, judeu, é preso em Itália e transportado para o campo de trabalho forçado e extermínio de Auschwitz. Aí conseguiu sobreviver durante mais de ano e meio.

No fim, registou para a posteridade nesta obra, o que é talvez o mais fiel, brutal, emocionante e triste relato do que era a vida antes da morte num campo de extermínio nazi.

Há no entanto um capitulo nesta obra que me desperta uma especial atenção. No meio de tamanha perfídia, de tamanho caos, de tamanha miséria de tamanha dor e sofrimento, são vários os ensinamentos que podem ser retirados deste pequeno capitulo: Ensinamentos sobre a capacidade de adaptação e sobrevivência de um ser humano, das virtudes do egoísmo, e uma lição prática do que são as leis de mercado e da essência do capitalismo, e mais ainda, do porquê do comunismo ou do socialismo nunca poderem ser viáveis, aliás, é precisamente dentro de um sistema profundamente comunista como um campo de concentração e extermínio que o capitalismo e o comércio mostram na sua essência como podem proporcionar a sobrevivência de um condenado e o alívio da dor e do sofrimento a um escravo. Este relato na primeira pessoa de alguém que nunca estudou economia mas que viveu na prática o comunismo, explica pormenorizadamente o que é o verdadeiro capitalismo e como ele pode salvar e melhorar a vida das pessoas.
Em jeito de adenda, no final transcrevo também uma parte do capítulo seguinte da mesma obra «Os submersos e os Salvos». Trata-se da descrição e análise do carácter e personalidade de quatro outros prisioneiros do campo, e da influência que isso tem na capacidade de adaptação e sobrevivência de cada individuo, e do sucesso que isso pode significar na vida de cada um.

Passo assim a transcrever na integra o Capítulo «Aquém do bem e do mal.

AQUÉM DO BEM E DO MAL

Tínhamos uma tendência incorrigível para ver em cada acontecimento um sinal
e um símbolo. Fazia já setenta dias que demorava a Wäschetauschen, a
cerimónia da troca de roupa, e corria insistente o boato de que a roupa faltava
porque, aproximando-se a frente de guerra, os alemães não podiam encaminhar
novos transportes para Auschwitz; “portanto”, a libertação estava próxima.
Corria, paralelamente, o boato oposto: que o atraso na troca significava
certamente a próxima total aniquilação do Campo. Pelo contrário, a troca veio
e, como sempre, a direção do Campo cuidou para que se verificasse de repente,
em todos os Blocos ao mesmo tempo.
Convém saber que no Campo não há tecido e que este é precioso. O único jeito
de arranjar um pano para limpar o nariz ou um trapo para enrolar os pés, é
cortar fora um pedaço de camisa no ato da troca. Se a camisa tem mangas
compridas, cortam-se as mangas; se não, a gente se contenta com um retângulo
da fralda, ou descose um dos tantos remendos. Ainda assim, precisa-se de certo
tempo para conseguir agulha e linha e executar a operação com capricho, de
modo que o estrago não resulte muito evidente na ocasião da entrega. A roupa
suja e rasgada vai, num monte, à Alfaiataria do Campo, onde é sumariamente
consertada; logo à desinfecção a vapor (não à lavagem!) e é novamente
distribuída; daí, para salvar a roupa usada das citadas mutilações, a necessidade
de que as trocas aconteçam de repente.
Mas, como sempre, não se pôde evitar que algum olhar esperto penetrasse sob a
lona do carro que saía da desinfecção, de modo que em questão de minutos o
Campo soube da iminência da Wäschetauschen e, de mais a mais, que desta vez
tratava-se de camisas novas, provenientes de um transporte de húngaros chegado
três dias antes.
A notícia teve imediata repercussão. Todos os detentores ilegais de segundas
camisas, roubadas ou arranjadas ou até honestamente compradas em troca de
pão para abrigar-se do frio ou para investir capital num momento de
prosperidade, precipitaram-se até a Bolsa, esperando chegar a tempo para trocar
a camisa de reserva por géneros alimentícios, antes que a avalancha de camisas
novas, ou a certeza da sua chegada, fizessem cair irreparavelmente a cotação do
artigo.
A Bolsa é sempre muito ativa. Embora cada troca (aliás, cada espécie de posse)
seja expressamente proibida, e frequentes batidas de Kapos ou Chefes de Bloco
ponham a correr mercadores, clientes e curiosos, no canto nordeste do Campo (e
se compreende: é o canto mais afastado dos alojamentos dos SS), logo que os
grupos voltam do trabalho, há sempre um ajuntamento excitado — no verão, ao
ar livre; no inverno, num dos lavatórios.
Vagam aqui, às dezenas, de lábios entreabertos e olhos alucinados, os
desesperados de fome, que um instinto falaz leva onde as mercadorias expostas
tornam mais aguda a mordida do estômago e mais ativa a salivação. Estão
munidos, no melhor dos casos, da miserável meia ração de pão que, com esforço
doloroso, pouparam desde a manhã, na absurda esperança de que apareça a
pechincha de uma troca vantajosa com algum ingénuo que não esteja a par das
cotações do dia. Alguns deles, com paciência feroz, compram, por essa meia
ração, um litro ,de sopa e logo, distanciando-se dos demais, dela pescam os
poucos pedaços de batata do fundo; logo, trocam outra vez a sopa pelo pão, e o
pão por mais um litro a ser “desnatado”, e assim por diante, até a exaustão dos
nervos ou até que um dos prejudicados os apanhe com as mãos na massa e lhes
dê uma boa lição, expondo-os ao vexame público. Pertencem à mesma
categoria os que vêm à Bolsa para vender a sua única camisa. Bem sabem o que
vai acontecer um desses dias, quando o Kapo se der conta de que sob o casaco
eles estão nus. O Kapo perguntará o que é que fizeram com a camisa — pergunta
puramente retórica pro forma, só para abordar o assunto. Responderão que a
camisa foi roubada no lavatório; também esta resposta é de praxe e não tem a
pretensão de ser acreditada; até as pedras do Campo bem sabem que, noventa e
nove vezes em cem, quem não tem mais camisa vendeu-a por causa da fome, e
que cada qual é responsável pela sua camisa, porque ela pertence ao Campo.
Então o Kapo dará uma surra neles, e logo eles receberão outra camisa e, um dia
ou outro, tornarão a vendê-la.
Os mercadores profissionais têm seu ponto na Bolsa, cada um em seu canto
habitual; primeiros entre eles os gregos, imóveis e silenciosos como esfinges,
acocorados atrás das gamelas de sopa espessa, fruto de seu trabalho, de suas
manipulações e de sua solidariedade nacional. Os gregos já estão reduzidos a
pouquíssimos; deram, porém, uma contribuição considerável à fisionomia do
Campo e à gíria internacional que se fala nele. Todo o mundo sabe que caravana
é a gamela; que la comedera es buena significa que a sopa está gostosa; o
vocábulo que exprime a ideia genérica de furto é klepsi-klepsi, de evidente
origem grega. Esses poucos sobreviventes da colónia judia de Tessalônica, de
dupla linguagem, espanhola e helênica, e de múltiplas atividades, são os
depositários de uma concreta, terrena, consciente sabedoria na qual confluem as
tradições de todas as civilizações mediterrâneas. O fato de que essa sabedoria se
manifesta, no Campo, com a prática sistemática e científica do roubo e da
escalada aos cargos, e com o monopólio da Bolsa de trocas, não deve fazer
esquecer que a repulsa dos gregos à brutalidade inútil, a sua assombrosa
consciência de que ainda subsiste uma dignidade humana (ao menos, potencial),
faz deles o núcleo nacional mais coerente do Campo e, sob esses aspectos, mais
civilizado.
A gente pode achar na Bolsa os especialistas em roubos na cozinha, com os
casacos estofados por saliências misteriosas. Enquanto para a sopa existe uma
cotação praticamente estável (meia ração de pão por um litro de sopa), a
cotação do nabo, das cenouras, das batatas é extremamente variável e depende
muito de diferentes fatores, entre os quais a eficiência e a venalidade dos guardas
de serviço nos depósitos.
Vende-se o Mahorca: o Mahorca é um tabaco ordinário, com aspecto de lascas
de madeira, oficialmente à venda na Cantina, em pacotinhos de cinquenta
gramas contra entrega de bónus-prémios, teoricamente distribuídos entre os
melhores trabalhadores da fábrica. Essa distribuição acontece irregularmente,
com grande parcimónia e evidente injustiça, de maneira que os bónus acabam,
em sua grande maioria, diretamente ou por abuso de autoridade, nas mãos dos
Kapos ou dos “proeminentes”; circulam, porém, no mercado do Campo,
funcionando como moeda, e seu valor é variável, estritamente ligado às leis da
economia clássica.
Houve períodos nos quais pelos bónus-prémios pagava-se uma ração de pão, logo
uma e um quarto, até uma e um terço; um dia foi cotado a uma ração e meia; de
repente, parou o abastecimento do Mahorca à Cantina, e, privada de sua
cobertura, a moeda despencou até um quarto de ração. Houve depois uma fase
de alta, devida a um motivo singular: a troca de guarnição no Frauenblock (Bloco
das Mulheres) com a chegada de um contingente de robustas moças polonesas. O
bônus-prêmio vale para uma entrada no Frauenblock (só para criminosos e
políticos; não para os judeus, os quais, porém, não sofrem com essa limitação);
então, os interessados trataram de açambarcar todos os bônus disponíveis e a
cotação subiu, mas não por muito tempo.
Entre os Häftlinge comuns, bem poucos procuram o Mahorca para fumá-lo
pessoalmente; em geral, este sai do Campo e vai parar entre os trabalhadores
externos da fábrica. Esse é um tipo de kombinacja muito comum: o Häftling,
depois de economizar de alguma maneira uma ração de pão, investe-a em
Mahorca, entra em contato, cautelosamente, com um “amador” de fora, que
compra o Mahorca pagando à vista, com uma quantidade de pão superior à
inicialmente investida. O Häftling come a margem de lucro e põe novamente em
circulação a ração que sobra. Negócios desse tipo estabelecem uma ligação
entre a economia interna do Campo e a vida económica do mundo exterior.
Quando, casualmente, parou a distribuição de fumo à população civil de
Cracóvia, o fato transpôs a cerca de arame farpado que nos segregava do resto
do mundo, provocando um claro aumento da cotação do Mahorca e, portanto, do
bônus-prêmio.
Esse caso foi o mais esquemático, mas há outros mais complexos. O Häftling
compra, com Mahorca ou com pão, ou consegue de presente de um trabalhador
de fora, um qualquer abominável, rasgado, sujo farrapo de camisa, desde que
provido ainda de três furos por onde fazer passar, bem ou mal, os braços e a
cabeça. Se o artigo mostra apenas sinais de uso, e não cortes arbitrários, ele vale
como camisa, no ato da Wäschetauschen, da troca de roupas, e dá direito à troca;
no pior dos casos, o portador poderá receber uma dose adequada de pancadas,
por ter cuidado tão mal do vestuário regulamentar.
No interior do Campo, portanto, não há grande diferença entre o valor de uma
camisa que ainda mereça o nome de camisa, e o valor de um trapo cheio de
remendos; o Häftling supracitado encontrará facilmente um companheiro
possuidor de uma camisa em condições de ser comercializada, mas sem poder
aproveitá-la porque, por razões de setor de trabalho, ou de linguagem, ou de
intrínseca incapacidade, não tem contacto com trabalhadores externos. Este,
então, se contentará com uma modesta quantidade de pão para fazer a troca, já
que a próxima Wäschetauschen tornará igual o valor das duas camisas, a boa e a
ruim, distribuindo totalmente ao acaso uma e outra. O primeiro Häftling, porém,
poderá contrabandear para a fábrica a camisa boa e vendê-la ao trabalhador de
antes (ou a outro qualquer) por quatro, seis, até dez rações de pão. Essa margem
tão elevada de lucro revela a gravidade do risco de sair do Campo com mais de
uma camisa posta, ou de voltar sem camisa.
Existem muitas variações sobre este tema. Há gente que não vacila em mandar
extrair as coroas de ouro dos dentes para trocá-las na fábrica por pão ou tabaco;
é mais comum, porém, que esse comércio aconteça com a intermediação de
terceiros. Um “número grande”, ou seja, um recém-chegado, já embrutecido
pela fome e pela extrema tensão da vida no Campo, é notado por um “número
pequeno”, por sua valiosa prótese dentária. O “pequeno” oferece ao “grande”
três ou quatro rações de pão, à vista, para que se submeta à extração. Se o
“grande” aceita, o “pequeno” paga, leva o ouro à fábrica e, se estiver em contato
com um trabalhador externo de confiança, que não inspire receio de delações ou
calotes, realizará um lucro de dez, ou até vinte ou mais rações, que lhe serão
pagas pouco a pouco, uma ou duas por dia. É de observar que, contrariamente ao
que acontece na fábrica, o valor máximo dos negócios fechados dentro do
Campo é de quatro rações de pão; aqui, seria praticamente impossível tanto
estipular contratos a prazo, como preservar uma quantidade maior de pão da
avidez alheia e da própria fome.
O tráfico com os trabalhadores externos é um aspecto característico do Campo
de Trabalho e determina a sua vida econômica. Constitui, por outro lado, um
crime expressamente previsto pelo Regulamento do Campo, assimilado aos
crimes “políticos” e, portanto, severamente punido. O Häftling réu convicto de
Handel mit Zivilisten (comércio com civis), se não tiver bons pistolões, acaba em
Gleiwitz III, em Janina, em Heidebreck, nas minas de carvão, o que significa
morte por esgotamento dentro de poucas semanas. E mais: o trabalhador externo,
seu cúmplice, pode ser denunciado à competente autoridade alemã e condenado
a passar no Vernichtungslager (Campo de Extermínio), em condições análogas às
nossas, um período variável (pelo que sei) entre quinze dias e oito meses. Os
operários sujeitos a essa espécie de punição são despidos na chegada, como nós,
mas suas roupas e objetos são guardados num depósito especial. Não são
tatuados, não são raspados, de modo que se diferenciam facilmente de nós, mas,
durante toda a duração da pena, são submetidos ao nosso trabalho e à nossa
disciplina — com exceção, obviamente, das seleções.
Trabalham em Kommandos especiais, não têm contato algum com os Häftlinge
comuns. O Campo, para eles, é apenas uma punição; portanto, se não morrerem
por esgotamento ou doença, terão boas chances de retornar ao mundo dos
homens. Se pudessem comunicar-se connosco, isso representaria uma brecha no
muro que nos torna mortos para o mundo, e uma fresta no mistério que reina
entre os homens livres quanto às nossas condições. Para nós, o Campo não é uma
punição; para nós não está previsto um prazo; o Campo é apenas o género de
existência que nos foi atribuído, sem limites de tempo, dentro da estrutura social
alemã.
Uma secção do nosso Campo está destinada, justamente, aos trabalhadores
externos de todas as nacionalidades, que ali devem permanecer durante um
tempo mais ou menos longo, para expiar suas ligações ilícitas com os Häftlinge.
Essa secção está separada do resto do Campo por uma cerca de arame farpado;
chama-se E Lager (Campo E), e seus hóspedes chamam-se E-Häftlinge. “E” é a
letra inicial de Erziehung, educação.
Todos os tráficos até agora mencionados baseiam-se no contrabando de materiais
pertencentes ao Campo. Por isso, os SS são tão rigorosos ao reprimi-los: até o
ouro dos nossos dentes é propriedade deles, porque, arrancado dos maxilares dos
vivos ou dos mortos, cedo ou tarde acabará nas suas mãos. É natural, portanto,
que se empenhem para que o ouro não saia do Campo.
Contra o roubo em si, porém, a direção do Campo não tem preconceito algum.
Prova-o o critério de ampla conivência dos SS com o contrabando inverso.
Aqui a questão, em geral, é mais simples. Trata-se de roubar ou receptar algum
dos variados utensílios, materiais, produtos etc. com os quais lidamos diariamente
na fábrica por motivos de trabalho; introduzi-lo no Campo à noite, achar o
interessado e fazer a troca por pão ou sopa. Esse tráfico é muito ativo; quanto a
certos artigos, ainda que necessários à vida no Campo, o roubo na fábrica é o
único meio regular de abastecimento. Casos típicos, os das vassouras, da tinta, do
fio elétrico, da graxa para sapatos.
Por exemplo, como já dissemos, o Regulamento do Campo prescreve que cada
manhã os sapatos sejam engraxados e lustrados, e todos os Chefes de Bloco são
responsáveis, perante os SS, pelo cumprimento dessa norma por parte de seus
homens. Seria de imaginar, portanto, que cada Bloco recebesse um fornecimento
periódico de graxa para sapatos, mas não: o mecanismo é outro. Convém uma
premissa: cada Bloco recebe a sua sopa, à noite, numa quantidade um tanto
superior à soma das rações necessárias; o que sobra é repartido, conforme
arbítrio do Chefe do Bloco: parte entre seus amigos e protegidos, parte aos
varredores, aos guardas noturnos, aos controladores de piolhos e aos demais
funcionários e proeminentes” do Bloco. O que ainda sobra (e o Chefe do Bloco
dá sempre um jeito para que sobre) serve, justamente, para as compras.
Agora tudo está claro: os Häftlinge que, na fábrica, encontram a maneira de
encher a gamela com graxa ou óleo (ou o que for: qualquer substância escura e
untuosa pode servir), chegando, à noite, ao campo, passam por todos os Blocos
até encontrarem o chefe que está sem graxa ou que pretende aumentar seu
estoque. Aliás, em geral cada Bloco tem seu fornecedor habitual, com o qual foi
acertada uma remuneração diária, desde que ele forneça a graxa cada vez que a
reserva vá acabando.
Cada noite, nas portas do Tagesräume, esperam pacientemente os grupinhos dos
fornecedores: de pé, durante horas, debaixo da chuva ou da neve, discutem
animadamente, em voz baixa, quanto às variações dos preços e ao valor dos
bônus-prêmios. De vez em quando, um deles se afasta para uma rápida visita à
Bolsa e volta com as últimas notícias.
Além dos artigos já mencionados, há outros, inumeráveis, que podem ser
encontrados na fábrica e resultar úteis no Bloco, ou de agrado do chefe, ou de
interesse dos “proeminentes”. Lâmpadas, escovas, sabão comum ou de barbear,
limas, alicates, sacos, pregos; vende-se o álcool metílico, bom para fazer
beberagens, e a gasolina, que serve para rústicos lampiões, prodígios da indústria
secreta dos artesãos do Campo.
Nesta rede complicada de roubos e contra-roubos, alimentados pela surda
hostilidade entre os comandos SS e as autoridades civis da fábrica, uma função
importantíssima é exercida pela enfermaria (Ka-Be). O Ka-Be é o ponto de
menor resistência, a saída por onde mais facilmente podem ser desobedecidos os
regulamentos e burlada a vigilância dos chefes. Todos sabem que são os próprios
enfermeiros que jogam de novo no mercado, a baixo preço, as roupas e os
sapatos dos mortos e dos “selecionados” que partem nus para Birkenau; são os
enfermeiros e os médicos que contrabandeiam para a fábrica as sulfamidas de
seu estoque, vendendo-as aos trabalhadores externos em troca de alimentos.
Os enfermeiros ganham bem com o tráfico de colheres. O Campo não fornece
colher aos recém-chegados, embora não haja outro modo de tomar a sopa,
quase líquida. As colheres são feitas na fábrica, às escondidas e nos intervalos
livres, pelos Häftlinge que trabalham como especializados em Kommandos de
ferreiros e chapeadores; trata-se de utensílios toscos e maciços, obtidos de chapas
trabalhadas à força de martelo; amiúde com o cabo afiado para que sirva, ao
mesmo tempo, de faca para cortar o pão. Os mesmos fabricantes os vendem
diretamente aos recém-chegados: uma colher comum vale meia ração de pão;
uma colher-faca, três quartos de ração. Acontece que a lei é que a gente possa
entrar no Ka-Be com a colher; sair, só sem ela. Os que ficam bons, ao
receberem alta e antes de reaverem suas roupas, têm sua colher roubada pelos
enfermeiros, que logo a revendem na Bolsa. E já que, às colheres dos curados,
somam-se as colheres dos mortos e dos “selecionados”, os enfermeiros chegam
a receber, diariamente, a arrecadação da venda de umas cinquenta colheres. Em
compensação, os doentes com alta são obrigados a voltar ao trabalho com a
desvantagem inicial de meia ração de pão, destinada à compra de uma nova
colher.
Enfim: o Ka-Be é o principal cliente e receptador dos roubos perpetrados na
fábrica. Da sopa destinada ao Ka-Be, não menos de vinte litros são separados
diariamente como fundo destinado à compra de uma porção de objetos. Há
quem roube tubinhos de borracha, utilizados no Ka-Be para clisteres e sondas
gástricas; quem ofereça lápis e tintas de cor, requeridos para a complexa
contabilidade da administração do Ka-Be; e termômetros, vidros, reagentes
químicos, que saem dos depósitos da fábrica, nos bolsos dos Häftlinge, e são
aproveitados na enfermaria como material sanitário.
Eu não desejaria pecar por falta de modéstia, mas foi ideia nossa — do Alberto e
minha — a de roubar os rolos de papel milimetrado dos termógrafos do Setor
Secagem, e de oferecê-los ao Médico-chefe do Ka-Be, com a sugestão de usá-los
para os gráficos das pulsações e da temperatura.
Em conclusão: o roubo na fábrica, punido pelas autoridades civis, é autorizado e
incentivado pelos SS; o roubo no Campo, severamente reprimido pelos SS, é
considerado pelos civis como operação normal de troca; o roubo entre Häftlinge,
em geral, é punido, mas a punição toca, com igual gravidade, tanto ao ladrão
como à vítima. Desejaríamos, agora, convidar o leitor a meditar sobre o
significado que podiam ter para nós, dentro do Campo, as velhas palavras “bem”
e “mal”, “certo” e “errado”. Que cada qual julgue, na base do quadro que
retratamos e dos exemplos que relatamos, o quanto, de nosso mundo moral
comum, poderia subsistir aquém dos arames farpados.»


Trecho do capítulo «Os submersos e os salvos»

« (…)Contando as histórias de Schepschel, Alfred L., Elias e Henri, tentaremos
demonstrar de quantas maneiras pode-se alcançar a salvação.
Schepschel vive no Campo há quatro anos. Viu morrer ao redor de si dezenas de
milhares de seus semelhantes, desde o pogrom que o enxotou de sua aldeia na
Galícia. Tinha mulher, cinco filhos e um próspero negócio de selas, mas faz já
muito tempo que deixou de pensar em si a não ser como num saco que necessita
ser enchido periodicamente. Schepschel não é muito robusto, nem muito valente,
nem muito mau; nem é particularmente astucioso; nunca conseguiu uma
colocação que lhe desse um pouco de folga; só pode recorrer aos jeitinhos
esporádicos, às kombinacjes, como aqui são chamadas.
De vez em quando, rouba uma vassoura na fábrica e a vende ao encarregado do
Bloco; quando consegue juntar um pouco de capital-pão, aluga as ferramentas do
sapateiro, conterrâneo dele, e trabalha umas horas por conta própria. Sabe fazer
suspensórios com fios elétricos trançados. Sigi me disse que no intervalo do meio-dia
já o viu cantar e dançar frente ao Bloco dos operários eslovacos, esperando
receber alguma sobra de sopa.
Poderíamos ser levados a pensar em Schepschel com certa indulgente simpatia,
como num coitado cujo espírito já abriga apenas uma humilde, elementar
vontade de viver, e que sustenta valentemente a sua pequena luta para não
sucumbir. Schepschel, porém, não constituía uma exceção: quando a
oportunidade chegou, não hesitou em deixar açoitar Moischl (que fora seu
cúmplice num roubo na cozinha), na vã esperança de adquirir méritos perante o
Chefe do Bloco e de candidatar-se à função de lavador de panelas.
A história do engenheiro Alfred L. prova, entre outras coisas, até que ponto é
irreal o mito da igualdade original entre os homens.
L. dirigia, em seu país, uma grande fábrica de produtos químicos; seu nome era
(e é) bem conhecido nos ambientes industriais de toda a Europa. Em um homem
robusto, de uns cinquenta anos. Ignoro como foi preso, mas entrou no Campo
como todos: nu, sozinho e desconhecido. Quando o conheci, estava bem
enfraquecido, mas conservava no rosto os traços de uma energia disciplinada e
metódica. Naquela época, seus privilégios limitavam-se à limpeza diária do
panelão dos operários poloneses. Esse trabalho, do qual conseguira (não sei
como) a exclusividade, rendia-lhe meia gamela de sopa por dia. Não o
suficiente, por certo, para saciar-lhe a fome, mas ninguém o ouvira queixar-se.
Pelo contrário, as poucas palavras que ele se dignava dizer eram tais que fariam
imaginar grandes recursos secretos e uma “organização” sólida e proveitosa.
Sua aparência confirmava isso. L. tinha classe; mãos e rosto sempre bem limpos;
a raríssima abnegação de lavar a camisa a cada quinze dias, sem esperar pela
troca bimestral (convém lembrar que lavar a camisa significa achar o sabão,
achar o tempo, achar o espaço no lavatório apinhado, cuidar atentamente, sem
virar os olhos um instante, da camisa molhada e vesti-la, obviamente, ainda
molhada, à hora do toque de silêncio quando as luzes se apagam). Possuía
tamancos de madeira para ir à ducha, e até sua roupa listrada adaptava-se
estranhamente ao seu corpo, limpa e nova. L., enfim, tinha conseguido a
aparência toda do “proeminente”, muito tempo antes de chegar a sê-lo. Só depois
é que eu soube que toda essa ostentação de prosperidade, L. a tinha conquistado
com tenacidade incrível, pagando cada compra, cada serviço com o pão da sua
própria ração e sujeitando-se, portanto, a uma dieta ainda mais dura.
Seu plano era de longo alcance, o que é tanto mais notável, porque foi concebido
num ambiente no qual dominava a mentalidade do provisório. L. realizou esse
plano graças a uma rígida disciplina interior, sem piedade por si, nem pelos
companheiros que lhe embaraçassem os passos. Bem sabia que ser julgado
poderoso é meio caminho andado para se tornar realmente poderoso e que
sempre — porém, especialmente no meio do nivelamento geral do Campo —
uma aparência digna de respeito é a melhor garantia de ser respeitado. Esforçou-se
para não ser misturado com o rebanho; trabalhava com afinco ostensivo,
exortando, até, os companheiros preguiçosos, num tom convincente e crítico;
evitava a briga diária pelo melhor lugar na fila do rancho, adaptando-se a
receber cada vez a primeira ração, sabidamente mais líquida, de modo a ser
notado por sua disciplina pelo Chefe do Bloco. E, para rematar seu destaque, em
suas relações com os companheiros comportava-se sempre com a maior
cortesia, até onde o permitisse o seu absoluto egoísmo.
Quando foi criado (como já vamos dizer) o Kommando Químico, L.
compreendeu que a sua hora tinha chegado: bastaria sua roupa esmerada e seu
rosto magro, sim, mas sempre bem barbeado, no meio do bando de seus colegas
sórdidos, desleixados, para convencer de imediato o Kapo e a Chefia do Trabalho
de que ele era um autêntico “salvado”, um “proeminente” em potencial, de
modo que (conforme a regra de que “a quem tem, será dado”) sem demora foi
promovido a “especializado”, nomeado chefe técnico do Kommando e recrutado
pela Direção da fábrica como analista no Laboratório do Setor Estireno. Mais
tarde, foi incumbido de examinar os novos candidatos do Kommando Químico,
julgando a sua capacidade profissional — o que sempre fez com extremo rigor,
principalmente ao farejar possíveis concorrentes futuros.
Ignoro a continuação da sua história, mas acho bem provável que ele tenha
escapado à morte e que viva, hoje, a sua vida fria de dominador, resoluto e sem
alegria.
Elias Lindzin, 141.565, apareceu de repente, ninguém sabe como, no Kommando
Químico. É um anão, que não passa de um metro e meio; nunca, porém, vi
musculatura como a dele. Nu, distingue-se cada músculo trabalhar por baixo da
pele, possante e móvel como um animal com vida própria. Aumentado sem
alterar suas proporções, seu corpo serviria de modelo para um Hércules, desde
que não se olhasse a sua cabeça. Debaixo do couro cabeludo, as suturas
cranianas destacam-se grossas. O crânio é maciço, dá a impressão de ser de
metal ou pedra; apenas um dedo acima das sobrancelhas nota-se o limite escuro
do cabelo raspado. O nariz, o queixo, a fronte, as maçãs do rosto são duros e
compactos, a face inteira parece uma cabeça de aríete, uma ferramenta feita
para bater. De sua pessoa emana um vigor selvagem.
Ver Elias trabalhando é um espetáculo inquietante; os mestres poloneses, até os
alemães detêm-se, às vezes, para apreciá-lo. Parece que, para ele, nada é
impossível. Enquanto nós carregamos a muito custo um saco de cimento, Elias
leva dois, logo três, quatro, conservando-os em equilíbrio quem sabe como, e,
enquanto caminha a passinhos rápidos com suas pernas curtas e fortes, faz
caretas debaixo da carga, ri, pragueja, berra e canta sem parar, como se tivesse
pulmões de bronze. Elias, apesar das solas de madeira, trepa como macaco pelos
andaimes, corre seguro nas vigas suspensas por cima do vazio; leva seis tijolos de
uma vez em equilíbrio na cabeça; de um pedaço de chapa sabe fazer uma
colher, de um fragmento de aço, uma faca; acha sempre papel, lenha, carvão
bem secos e acende uma fogueira num instante, ainda que debaixo de chuva.
Sabe trabalhar de alfaiate, de marceneiro, sapateiro, barbeiro; cospe a distâncias
incríveis; canta, com razoável voz de baixo, canções polonesas e iídices que
nunca ouvimos antes; pode engolir seis, oito, dez litros de sopa sem vômito nem
diarreia e recomeçar imediatamente a trabalhar. Sabe ejetar do meio das costas
uma grossa giba e caminha todo torto e contrafeito pelo Bloco, gritando e
declamando, incompreensivelmente, no meio da alegria dos “proeminentes” do
Campo. Já o vi lutar com um polonês, uma cabeça mais alta do que ele, e
derrubá-lo de um só golpe de crânio no estômago, possante e preciso como uma
catapulta. Nunca o vi descansando, nunca calado ou quieto, nunca soube que se
machucasse ou adoecesse.
Da sua vida de homem livre, ninguém sabe nada. Por outra parte, imaginar Elias
no papel de homem livre exige um grande esforço de fantasia. Fala só polonês e
o iídiche mau e corrompido de Varsóvia; não há maneira de induzi-lo a um
discurso coerente. Poderia ter vinte ou quarenta anos; em geral, diz ter trinta e
três e ter gerado dezassete filhos, o que não parece inverossímil. Fala sem parar
dos mais variados assuntos, sempre com voz trovejante, com acentos oratórios,
com mímica violenta de protesto e como dirigindo-se, sempre, a um público
numeroso — e, obviamente, público não lhe falta. Os que entendem a sua
linguagem acompanham essas declamações torcendo-se de rir, dão-lhe tapas nas
costas, aplaudem entusiasmados, incitam-no a continuar, enquanto ele, feroz e
carrancudo, dá voltas como uma fera no meio da roda de ouvintes, encarando
ora um, ora outro. De repente, aferra um pelo peito com sua garra, puxa-o
irresistivelmente para perto de si, vomita-lhe no rosto uma praga
incompreensível, logo o joga longe como uma palhinha e, entre aplausos e risos,
os braços erguidos para o céu como um pequeno monstruoso profeta, prossegue
em sua fala furiosa e desatinada.
A sua fama de trabalhador extraordinário espalhou-se rapidamente e, conforme
a lei absurda do Campo, desde então quase parou de trabalhar. Sua ajuda era
solicitada diretamente pelos mestres só para as tarefas que exigissem especial
perícia e vigor. Fora esses casos, Elias presidia, insolente e violento, à nossa
massante labuta quotidiana, sumindo frequentemente para misteriosas visitas e
aventuras em quem sabe quais cantos da fábrica, de onde voltava com os bolsos
salientes e, amiúde, de barriga visivelmente cheia.
Elias é ladrão, natural e inocentemente, com a astúcia instintiva dos animais.
Nunca é apanhado, porque só rouba se aparecer uma oportunidade segura, mas,
cada vez que essa oportunidade aparece, Elias rouba, fatal e previsivelmente,
assim como uma pedra solta cai. Aliás, de nada serviria castigá-lo pelos roubos:
são, para ele, um ato vital como respirar e dormir.
Poderíamos nos perguntar: quem é esse homem? Um louco, incompreensível e
extra-humano, que veio parar no Campo? Ou algo atávico, fora do nosso mundo
atual, e mais apto às primordiais condições de vida no Campo? Ou, pelo
contrário, um produto do Campo: o que todos nós acabaremos sendo, se não
morrermos aqui, se o Campo não acabar antes de nós?
As três hipóteses têm algo verossímil. Elias sobreviveu à destruição externa,
porque é fisicamente indestrutível; resistiu à aniquilação interna porque é
demente. Ele é, portanto, um sobrevivente: o mais apto, o espécime humano
mais adequado a esta maneira de viver.
Se Elias recuperar a liberdade, acabará confinado à margem do convívio
humano, num cárcere ou num hospício. Aqui, porém, no Campo, não há
criminosos nem loucos: não criminosos, porque não existe uma lei moral a ser
violada; não loucos, porque somos programados; cada ação nossa é, neste tempo
e neste lugar, claramente a única possível.
No Campo, Elias prospera e triunfa. É bom trabalhador, sempre sabe dar um
jeito, e por essas duas razões fica livre das seleções, respeitado pelos chefes e os
companheiros. Para quem não disponha de sólidos recursos interiores, para quem
não saiba tirar da consciência de si a força necessária para ancorar-se à vida, só
há um caminho para a salvação, o de Elias: o da loucura e da bestialidade
traiçoeira. Os outros são caminhos sem saída.
Dito isso, alguém poderia querer tirar conclusões, ou até normas, quanto à nossa
vida diária. Não existem, ao redor de nós, vários Elias, mais ou menos realizados?
Não vemos continuar vivendo seres ignorantes de metas, fechados a qualquer
forma de autocontrole e consciência? E eles não vivem apesar dessas lacunas,
mas justamente (como Elias) em função delas.
A questão é séria, mas vamos parar por aqui. Nossas histórias são histórias do
Campo de Concentração; já se escreveu muito quanto ao homem fora do
Campo. Desejaríamos acrescentar só uma coisa: Elias, até onde nos foi possível
julgar e até onde a frase possa ter um significado, era, provavelmente, um
homem feliz.
Henri, pelo contrário, é eminentemente civilizado e consciente e possui uma
teoria completa e orgânica quanto às maneiras de sobreviver no Campo. Tem só
vinte e dois anos, é extremamente inteligente, fala francês, alemão, inglês e
russo, possui ampla cultura científica e clássica.
O irmão dele morreu na fábrica no último inverno. Desde então, Henri cortou
todo laço afetivo; fechou-se em si mesmo como dentro de uma couraça e luta
pela vida sem se descuidar, com todos os recursos que tira de sua inteligência
pronta e de sua educação refinada. De acordo com a teoria de Henri, para fugir
à destruição existem três métodos que o homem pode aplicar continuando digno
do nome de homem: o “jeito”, a compaixão, o roubo.
Ele aplica os três. Ninguém tem melhores estratégias para aliciar (“cultivar”, é a
sua expressão) os prisioneiros ingleses. Em suas mãos, eles se tornam
verdadeiras galinhas de ovos de ouro; basta pensar que, com a troca de um único
cigarro inglês, no Campo se tira o suficiente para saciar a fome de um dia. Numa
ocasião, Henri foi visto comendo um autêntico ovo cozido.
O tráfico de mercadoria de origem inglesa é monopólio de Henri — e até aqui,
trata-se de “jeito”, mas seu instrumento de penetração, junto aos ingleses e aos
demais, é a piedade. Henri tem o corpo e o rosto delicados e um tanto perversos
do São Sebastião pintado por Sodoma: seus olhos são negros e profundos, ainda
não tem barba, move-se com lânguida, natural elegância (embora, se for o caso,
saiba correr e pular como um gato, e a capacidade de seu estômago seja inferior
apenas à de Elias). Desses seus dotes naturais Henri está bem consciente e os
aproveita com a fria habilidade de quem manobra um instrumento científico. Os
resultados são surpreendentes. Trata-se, substancialmente, de um descobrimento:
Henri descobriu que a compaixão, sentimento primário e irrefletido, floresce
muito bem (desde que transmitida habilmente) justamente nas almas primitivas
dos brutos que nos comandam, os mesmos que não têm o menor escrúpulo em
derrubar-nos a socos sem razão e a pisar em cima de nós uma vez derrubados.
Henri não deixou de perceber o alcance prático do descobrimento, no qual
inseriu a sua indústria pessoal.
Assim como certos marimbondos paralisam as gordas lagartas peludas,
fincando-lhes o esporão no único gânglio vulnerável, de um só golpe de vista
Henri avalia o sujeito, son type, fala-lhe brevemente — a cada qual com a
linguagem apropriada — e o type é conquistado: escuta com crescente simpatia,
comove-se com a sorte do jovem desventurado, e não é preciso muito tempo
para que comece a produzir.
Não existe alma tão empedernida que Henri não consiga enternecer quando se
empenha nisso. No Campo, e na fábrica também, seus protetores são numerosos:
soldados ingleses, trabalhadores externos franceses, poloneses, ucranianos;
“políticos alemães; ao menos quatro Chefes de Blocos, um cozinheiro, até um SS.
Seu ambiente preferido, porém, é a enfermaria: no Ka-Be, Henri tem entrada
franca; o Dr. Citron e o Dr. Weiss são, mais que protetores, amigos que o
recebem quando quer e com o diagnóstico que ele quiser. Isso acontece
especialmente em vista de seleções e nos períodos de trabalho mais duro. Ele diz:
vou tirar minhas férias de inverno.
Já que Henri dispõe de tão importantes amigos, raramente precisa recorrer ao
terceiro caminho, o do roubo; por outro lado, compreende-se que, quanto a esse
aspecto, ele prefira ficar de bico calado.
Conversar com Henri nas horas de folga é bem agradável. E útil também: não há
nada no Campo que ele não conheça e sobre o que não tenha raciocinado com
sua maneira objetiva e coerente. Das suas conquistas fala com polida modéstia,
como de presas de pouca importância, mas de boa vontade demora-se em expor
o cálculo que o levou a abordar Hans perguntando pelo filho dele, soldado no
front, e Otto, mostrando-lhe as cicatrizes que tem nas canelas.
Falar com Henri é útil e agradável. Acontece também, algumas vezes, que a
gente o sinta cálido e próximo; que pareça possível um contato, um afeto talvez;
chegamos a imaginar ter percebido o fundo humano, doloroso, consciente da sua
personalidade fora do comum. No instante seguinte, porém, seu sorriso triste
transforma-se numa careta fria que parece ter sido construída na frente do
espelho; Henri pede licença, gentilmente (j’ai quelque chose à faire. . . j’ai
quelqu’un à voir — tenho algo a fazer… tenho que ver alguém), e lá vai de novo,
só pensando na sua caçada, na sua luta; duro e distante, fechado em sua
carapaça, inimigo de todos, desumanamente astucioso e incompreensível como a
Serpente da Gênese.
De todos os colóquios com Henri, até dos mais cordiais, sempre saí com um leve
sabor de derrota; com a vaga suspeita de ter sido, eu também, de alguma
maneira inadvertida, não um homem em sua frente, mas um instrumento em
suas mãos.
Sei, hoje, que Henri está vivo. Pagaria para saber como é a sua vida de homem
livre, mas não desejo tornar a vê-lo.»

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